25.3.20
Sentir-me inútil
Estou há muito tempo em isolamento social. Entretanto, fui dispensada do meu trabalho. A maior parte das lojas do mundo estão fechadas, logo não há programas de mystery shopping. Nos primeiros dias, apreciei não fazer nada. Na verdade, andava tão cansada que o timing foi mesmo oportuno. Apesar de não descansar do trabalho doméstico, sempre descansava do outro trabalho. Hoje em dia, passo o dia a cozinhar e a limpar. Sinto-me uma imprestável. Não produzo nada, não ajudo a comunidade, não faço a diferença. Procuro pesquisar o que é possível fazer e não sou capaz de fazer nada que ajude a minorar os efeitos desta pandemia. Não sou profissional de saúde, não sei costurar, não sei cozinhar, na verdade, na prática, não sei fazer nada. Uma pessoa estuda, especializa-se, trabalha, cresce profissionalmente, dirige uma equipa de dezenas de pessoas... vem um vírus e já não conseguimos fazer nada. Isto de me pedirem para ficar em casa soa-me a pouco. Não sou pessoa de ficar parada perante adversidades, bem pelo contrário. Eu sou daquelas ansiosas que reage, não paraliso. Neste momento, estou em paralisação forçada e não estou bem. É óbvio que vou continuar fechada em casa, a cuidar de mim e da minha família, mas precisava de mais qualquer coisa. Se alguém precisar da ajuda desta imprestável, disponha!
24.3.20
A fuga para o interior
Estamos há 13 dias em isolamento social. Não me custa muito porque já o praticava antes, mas ser forcada a isso é tramado. Vivemos em Trás-os-Montes e vivemos numa aldeia, a 5 km de Vila Real. Nem sempre é fácil viver numa aldeia. Temos que nos deslocar para tudo: compras, restaurantes, cafés, passeios... A grande vantagem é a largueza de horizontes, a paz de viver sem ruídos, sem trânsito, o espaço. Ter uma casa com espaço, com jardim onde os miúdos podem brincar. Aqui os vizinhos oferecem ovos, legumes, ajuda, simpatia. O interior está despovoado. Ninguém cá quer viver porque não há empregos. O meu marido tem que sair daqui para trabalhar. O apelo para viver no litoral foi muito grande. Eu recusei vários trabalhos em Lisboa e Porto. Entretanto, tive o privilégio de trabalhar a partir de casa e conseguimos manter a nossa vida familiar no interior. A escola que a minha filha frequenta vai fechar. Já está decidido! E logo eu que queria atrasar que ela fosse para uma escola grande... eu queria mesmo que ela frequentasse uma escola pequena numa aldeia. Portanto, ninguém quer viver numa aldeia, mas nestes dias as aldeias estão cheias de gente. De repente, viver na aldeia já é bom. Sejam todos bem-vindos! Mesmo! Mas fiquem em casa! Por favor! Eu que vivo na aldeia, na saio de casa, mas quem vem do estrangeiro, contactou com imensa gente, anda a passear pelas ruas, lojas e a visitar familiares. Não sejam inconscientes! Não matem os poucos habitantes das nossas aldeias. Só espero que, quando tudo isto passar, não se esqueçam do interior. Agora precisamos todos de estar em casa.
23.3.20
Receita para fazer com as crianças - Madalenas
Hoje, uma querida amiga enviou-me uma receitinha perfeita para fazer com as crianças.
Espero que gostem. Nós vamos fazer amanhã. Espero que partilhem connosco.
Espero que gostem. Nós vamos fazer amanhã. Espero que partilhem connosco.
Dia 12
Coloquei-me e à minha filha em isolamento social muito antes do governo o impor. Na altura, não me custou nada. Em isolamento social já vivo eu há mais de 12 anos, desde que comecei a trabalhar em regime de tele-trabalho. 98% dos meus colegas de trabalho vivem no estrangeiro e nenhum dos portugueses vive por perto. Antes de ser mãe, era frequente sair ao fim do dia para um lanche com os amigos e fins-de-semana sempre bem animados. A criança nasceu e a reclusão impôs-se. As rotinas, os horários, as refeições, tudo passou a ser feito em função dela. Eu sofro de ansiedade generalizada. Fazer cenários, quase sempre fatalistas, é-me muito fácil. Porém, nunca fiz uma projecção de testemunhar o que vivemos hoje. Aliás, testemunhar, talvez. Estamos habituados a assistir à distância a várias desgraças por esse mundo fora. Por mais cruel que possa parecer, quando a desgraça é aqui ao lado choca-me mais. Eu sei que uma vida é uma vida, seja lá onde for, mas consigo mais facilmente colocar-me no lugar de uma família europeia do que no de outra no Sudão do Sul. Viver isto está a ser uma experiência completamente surreal. Procuro abstrair-me e, às vezes, parece que estou a ver nas notícias os números de outros países, mas não. São mortes em Portugal, mortes que crescem todos os dias. Uma peste democrática que atinge todos, aqui ou na China, ricos ou pobres, homens ou mulheres, com estudos ou sem estudos. Nos momentos de lucidez, a ansiedade toma conta de mim e até parece que assumo como meus os sintomas desta doença. Tenho a sorte de ter uma casa enorme, cheia de espaço no interior e no exterior. Esta casa que me causava uma sensação de pequenez e de isolamento do mundo real, por se situar numa aldeia, agora proporciona-me a segurança e o conforto que me permite manter alguma sanidade mental. Nos dias bons, brincamos na rua, corremos, faço caminhadas, jogamos à bola, fazemos churrascos, contemplamos a Natureza a acontecer. Tudo dentro do meu jardim. Se estivesse num apartamento no centro da cidade, como tanto reclamo, já tinha enlouquecido. Nos meus pensamentos estão essas famílias que têm que se acomodar nos seus espaços exíguos, crianças saturadas, com falta de uma corrida. Penso também naqueles que não têm como se abastecer, que dependem de outros para sobreviver, naqueles que precisam de sair para trabalhar porque são indispensáveis ao país... E sinto-me inútil.
18.3.20
Aulas de Inglês gratuitas
Tendo em conta que não tenho muito que fazer profissionalmente - as tarefas de casa continuo a fazê-las -, resolvi dar umas aulas gratuitas a quem precisa de se entreter também.
Vão ser unidades separadas, aulas curtas e, sempre que possível, facultarei material de apoio. Vou dando os links das chamadas online na minha página no Facebook - www.facebook.com/omundomara
Vão ser unidades separadas, aulas curtas e, sempre que possível, facultarei material de apoio. Vou dando os links das chamadas online na minha página no Facebook - www.facebook.com/omundomara
17.3.20
Dicas para trabalhar a partir de casa
Trabalho há mais de 12 anos exclusivamente a partir de casa. No início, era muito rigorosa com os horários e com o espaço. Com o avançar do tempo, dei por mim a trabalhar na cama, de pijama, a trabalhar e quanto almoçava, completamente fora de horas e sem limites. É muito, muito mau. Numa altura em que estamos em isolamento social, muita gente trabalha a partir de casa, e convém não caírem nos mesmos erros que eu. Claro que a situação agora é um pouco diferente porque muita gente está a trabalhar em casa com os filhos ao lado. Ainda assim, tenho algumas dicas para partilhar.
- Manter as mesmas rotinas, dentro do possível, claro. Tomar banho, vestir, tomar o pequeno-almoço, trabalhar.
- Nada de passarem o dia em pijama. Acreditem, vão perder muita energia.
- Criar uma rotina antes de começar o trabalho. Pode ser o café, pode ser dizer um olá virtual a um colega, pode ser o avisar a família que se vai começar o trabalho.
- Definir regras com a família. Para não reduzir a produtividade, é importante que todos compreendam o nosso espaço e tempo.
- Fazer pausas é tão importante como trabalhar. Já fiz asneiras por estar a trabalhar há muitas horas seguidas. Essas pausas devem mesmo ser forçadas, mesmo que não nos sintamos cansados.
- Não comer este mundo e o outro. Cuidado com essas pausas! Sentados o dia todo e a comer, não tarda nada temos uma pandemia de obesidade. Para engordar e perder a saúde não é preciso muito.
- Sair de casa... pois, agora não convém. Caso a casa tenha um jardim ou uma varanda, podem sempre apanhar um ar cá fora. Caso contrário, fiquem à janela e observem a vida lá fora.
- Ter um espaço isolado para trabalhar. Sempre tive escritório para mim, mas acabei por trabalhar a maior parte do tempo na sala. Estou quase sempre sozinha em casa, por isso é indiferente onde estou. No entanto, tenho o meu espaço quando preciso de fazer chamadas de vídeo conferência e onde tenho essa privacidade.
- Fazer amigos. Ao longo destes 12 anos, fiz muitos amigos virtuais, uma delas tornou-se uma das minhas melhores amigas. Eu moro em Trás-os-Montes e ela na Índia. Falamos todos os dias. E falo regularmente com outros colegas. Fazem-me falta e gostava de os ter na minha vida real e sair para tomar café. Ajuda imenso a enfrentar o trabalho. Também aproveito as pausas para telefonar às minhas amigas “reais”. Temos que manter a vida o mais normal possível.
- Façam o que vos faz feliz e resulta em vossa casa. Esta é a minha experiência e pode não se adequar à vida de outra pessoa.
Honestamente, não sei quando isto vai passar. Antecipo, e não sou fatalista, que demore bastante tempo a passar. Gostava que tudo voltasse ao que era, que eu fosse a excepção a trabalhar em casa. Enquanto isto não passa, vamos tentando manter as nossas vidas o mais normais possível.
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