22.7.25

Radioterapia

Confesso, estava cheia de medo da radioterapia. 

A minha radio-oncologista é uma porreira e, tal como a minha oncologista, é jovem. Gosto! Dedicou-me imenso tempo, explicou-me tudo e até me explicou que o facto do meu tumor ter 90% de taxa de proliferação significava que responderia melhor à quimioterapia. Também disse que se não fizesse quimioterapia e radioterapia era 100% certo que o meu cancro voltaria. Explicou que a radioterapia não queima, ao contrário do que é comum achar-se. A radioterapia provoca inflamação nos tecidos, daí a alteração da cor e mesmo o aspeto queimado e dorido. Cada pessoa e cada pele reagem de forma diferente. A Dra. estava tranquila, falou da importância da radiação no meu tratamento e mostrou-se disponível para responder a qualquer dúvida que eu tivesse. Recomendou-me um creme, mas eu optei por outro. 

Por fim, tinha dito que alguém da equipa de enfermagem me telefonaria a agendar a hora certa. Só tinha o dia e seria no dia 9 de Julho. Ninguém ligou. Quando me preparava para ligar para o serviço de radioterapia, recebo uma chamada a perguntar por que ainda não me tinha apresentado. Expliquei que ninguém me tinha ligado. Disseram que sim, que ligaram. Fui ver e ligaram, de facto, enquanto estava a ser operada para retirar o cateter, no dia 2 de Julho. Também não voltaram a ligar. Pediram que me apresentasse à 1 da tarde. 

Nunca receei a radioterapia, mas uma colega destas andanças, ligada à saúde, disse que temia muito a radioterapia. E deixou-me a sementinha do medo. Também já tinha lido que os efeitos colaterais da radioterapia são subvalorizados e aí comecei a preocupar-me mesmo.  

Tentei não pensar muito no assunto nos dias anteriores. Nunca fui assim, sempre fui super ansiosa. Mas quando somos confrontados com a nossa finitude, aprendemos a gerir melhor as emoções e poupamo-nos a sofrimentos desnecessários.

A minha mãe quis acompanhar-me à sala de espera. Mantive a postura forte de assumi desde o primeiro dia mas, quando chamaram “Mara Cristiana”, desabei. Atravessei aquele corredor a chorar. A técnica que me conduziu ao vestiário foi incrível, deu-me a mão e tranquilizou-me, porém sem grande sucesso porque não me conseguiu acalmar.

Aquilo tudo era medo do desconhecido, do que virá depois deste tratamento, mas também o peso emocional de tudo o que estou a viver no pós-quimioterapia. Não é fácil gerir tantas emoções.

No vestiário, troquei de roupa para uma espécie de bata. Depois, entrei para a sala de radioterapia. Só me aquietei quando entrei e enfrentei o touro pelos cornos. Fui recebida por profissionais impecáveis, muito calmas e acolhedoras. Contei-lhes que ter informação me tranquiliza e elas, sobretudo a Cristiana, foram explicando cada passo com todo carinho. Isso fez toda a diferença comigo.

Deitei-me naquela maca dura e desconfortável e resolvi confiar no que me diziam. De barriga para cima e braços para trás, as técnicas calibraram e ajustaram tudo ao meu corpo. Tinha que estar alinhado com as tatuagens que deixaram na minha pele. 

Depois de tudo concluído, as técnicas saíram da sala e eu fiquei sozinha. Elas iam falando comigo através do intercomunicador. Eu não podia responder, tinha que me manter absolutamente imóvel, respiração superficial… só podia mexer os dedos das mãos. A radioterapia é de tal forma precisa que qualquer movimento fará interromper o tratamento. Não me mexi nem um milímetro e, quando acabou, já tinha a mão esquerda dormente. Isto foi o mais difícil.

A Cristiana explicou tudo, tudo, todos os termos técnicos, que eu entretanto esqueci devido à memória de galinha que a quimioterapia me deixou. 

A máquina gira à nossa volta e nunca se aproxima da cara, que era o meu receio. A parte do tratamento propriamente dito foi rápida e indolor. Não, não queima, não se sente nada, só se ouvem uns barulhinhos engraçados. Passei grande parte do tempo de olhos abertos a observar os movimentos.

Demorou mais um pouco por ser a primeira sessão, mas as próximas serão mais curtas. Primeiro, faz-se uma imagem, depois quatro tratamentos. 2 deles demoram certa de 15 segundos e os outros dois, por serem em arco, em que a máquina roda sobre nós como um arco-íris, demora um pouco mais, talvez 1 minuto de cada vez. 

Sempre que recebemos radiação, acendem-se umas luzes vermelhas e o som é diferente. Quanto o tratamento terminou, avisaram que podia baixar os braços, mas devia permanecer deitada porque a maca estava muito alta. As técnica entretanto entram na sala e ajudam-me a sair. E está feito. 

Saí da sala muito mais leve do que entrei. Ainda com cara de choro, claro, mas com uma sensação silenciosa de coragem, mesmo com medo.

Entretanto, já fiz 9 sessões de radioterapia. Nunca mais chorei. Não custa mesmo nada. Só de pensar que tinha preferido fazer mais 1 mês de quimioterapia em troca, até me arrepia. 

Também tive consulta de enfermagem onde me foi explicado que deveria usar roupas de algodão, claras, e largas para não agredirem a pele. Se sentisse necessidade de usar soutien, deveria usar uma t-shirt primeiro e depois o soutien por cima para não agredir a pele. Hidratar com o creme recomendado 3 vezes por dia e tomar banho com um óleo lavante. Ter cuidado com as agressões à pele, não apanhar sol nem calor, e água do banho mais para o frio. 

A 6 sessões do final, sinto o mamilo diferente do outro. Está mais escuro e um pouco inchado. Também a zona da mama onde a cirurgia interna aconteceu está um pouco mais retraída. Antes, a minha mama estava absolutamente normal e agora está repuxada. Hidrato sempre muito, mas também massajo para que a pele mantenha a elasticidade. 

Sei que os efeitos adversos podem surgir mais no final do tratamento e após. Ainda é cedo para avaliar, mas não me sinto mal. Não estava à espera, mas estou bastante cansada e nauseada. Podem ser ainda efeitos da quimioterapia, já que acabei há apenas 1 mês e meio. O envenenamento a que fui sujeita não sai do corpo assim tão facilmente. Há que ter paciência. 



1.ª sessão 

 
9.ª sessão 


7.7.25

Trombo na aurícula

Grande reviravolta que isto deu.

Há duas semanas tive consulta de ginecologia para marcar uma cirurgia que me vai remover as trompas e os ovários. Não tenho qualquer problema nestes órgãos, mas aqui são produzidas grande parte hormonas que alimentam as minhas células cancerígenas. As restantes são controladas com medicação. 

Fiz análises e eletrocardiograma já para preparar a cirurgia já em Julho. Estava tudo ok.

Só que da parte de tarde fui fazer um ecocardiograma com Doppler para despistar uma sombra que apareceu no coração no último TAC que fiz. Confirmou-se que era um coágulo, muito provavelmente provocado pela quimioterapia e pelo cateter. Tenho um trombo no coração e é assustador, não vou esconder. 

Fui imediatamente falar com a minha oncologista e aquela cirurgia cancelou-se. Vai ter que ficar para depois. Iniciei anti-coagulante para tentar dissolver o trombo (e terei que continuar durante 3 meses) e decidiu-se que o cateter vai ter de sair, como eu tanto queria. 

Entretanto, dei os primeiros passos na radioterapia. Consulta, tac para fazer as marcações e as minhas primeiras tatuagens. Não achei a posição muito confortável, mas vou ter aguentar. 

Marquei logo consulta de cirurgia com a minha cirurgiã no @trofa.saude e o cateter foi removido no dia 2. Correu tudo muito bem, como sempre, e até trouxe o cateter de recordação. 

Fiz o check-in e pouco depois já estava a ir para o bloco. Deram-me uma sedação porreira porque, apesar de não ser anestesia geral, não me recordo de nada e não me doeu nada. O anestesista até perguntou à Dra. Ana Sofia por que motivo eu tinha um cateter, já que não dava para ver nada nas minhas mamocas. E não dá. Ela fez um trabalho excelente e espero que não seja estragado pela radioterapia.






30.6.25

Hormonoterapia

2 semanas depois da quimio terminar, dei início à hormonoterapia. 

Fui ao hospital de dia para começar a tomar a injeção Zoladex. Ao chegar, percebemos que não me tinham dado previamente a pomada ou selo anestésico. E a injeção é dolorosa. Aplicaram-me a pomada e voltei para casa para regressar lá mais tarde. Além disso, também ninguém me tinha explicado os efeitos da dita cuja, e a enfermeira disse que não me dava a injeção sem que eu falasse com a oncologista primeiro. 

Voltei ao fim do dia para a consulta de oncologia e sala de espera estava completamente vazia. Nunca tinha visto. Recebi boas notícias das TACs que fiz na semana anterior a terminar a quimio e discutimos os próximos passos. Para além da Zoladex, vou tomar diariamente Letrozol (comprimidos) e ambos vão inibir a produção das hormonas que alimentavam os minhas células cancerígenas. Mais para o fim do mês, darei início aos preparativos para a radioterapia. 

A seguir, fui à enfermagem tomar a da injeção. O creme anestésico tinha sido aplicado 4 horas antes e não doeu absolutamente nada. A agulha é grossa e fiquei com a barriga negra durante duas semanas.








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29.6.25

Quimioterapia - o fim

Acabei a quimioterapia no dia 27 de Maio e só estou a conseguir falar sobre isso agora. Sempre que tentava voltar aqui para escrever, chorava copiosamente. 

Falei brevemente no Instagram aqui e aqui só para assinalar as datas, mas foi muito doloroso. A verdade é que chorei mais neste último mês do que durante os 5 meses de tratamento. E isso foi muito surpreendente porque tudo o que eu queria era chegar a este dia 27 de Maio. Achava que ia ficar feliz, mas não fiquei. 

Quando me instalei para fazer tratamento, informei, entusiasmada, a enfermeira que era a minha última quimio. Só que ela não pareceu nada impressionada. Primeira desilusão. Não entendo como um marco tão importante na vida de um doente oncológico pode ser tão ignorado pelos profissionais de saúde que nos acompanham. Afetou-me profundamente. Claro que a minha médica também não apareceu. Sabem aqueles sininhos que costumam haver nos hospitais estrangeiros? Aqui não há! Nem isso, nem palavras de incentivo. 

Quando cheguei a casa, a minha querida mãe tinha-me comprado flores. E foi a única pessoa que percebeu verdadeiramente o que significou aquela última quimioterapia. E ela é que merecia as flores. Porque ver o que ela viu não é fácil. 

As outras pessoas que compreenderam foram as minhas colegas de luta. Pode parecer clichê, mas só mesmo quem passa por isto consegue avaliar. É tão importante esta comunidade de mulheres… Quer sejam aquelas que já passaram por isso e nos ajudam, quer sejam as que estão no início do processo e nós ajudamos. 

E de que forma nos ajudamos? Com partilha de informação, com escuta ativa… Para mim foi importantíssimo ter a amiga Ângela a esclarecer-me no início e entretanto várias outras pessoas chegaram à minha vida. Ajudas preciosas.

Resumindo, terminei uma etapa tão difícil e importante, mas não houve festa, não houve celebração, não houve nada. E por isso é que esta viagem é tão solitária. Mas fiquei triste e desiludi-me porque tive expectativas.

Passada aquela minha euforia de terminar o tratamento, foi altura de aguentar os efeitos secundários. Foram dias infernais, após o último tratamento. Ainda hoje me sinto envenenada e terei esse veneno dentro de mim. 

Apesar de eu ter maioritariamente náuseas e fadiga, o que se sente é muito mau. Talvez tenha sido pior porque já tinha passado por uma cirurgia, tinha começado pelas brancas e aguentar as vermelhas, que são as mais duras, no final de tudo, foi extremamente difícil. Ou seja, não há uma dor que eu possa identificar, mas doeu-me muito. Foi um desconforto enorme, uma dor de alma, uma inércia, um vazio… foi mau, muito mau. 

Quando me dizem que estes 5 meses de quimioterapia passaram rápido… como assim? Como se atrevem a dizer tal coisa? Foi penosamente lento! É querer tentar manter alguma normalidade, mas a maior parte das pessoas que nos rodeia só vê uma pessoa com cancro à frente. E sentem pena. Ou medo. Outros não conseguem lidar connosco e com a nossa imagem e afastam-se. E isso dói. Parece que desistiram de nós quando mais precisamos deles.

Neste último mês, o cabelo, pestanas e sobrancelhas começaram a crescer com maior vigor, mas o cabelo continua a cair. Continuei a engordar, apesar da dieta. As unhas das mãos estão ótimas, as dos pés ficaram agora um pouco escuras. Curiosamente, depois do tratamento acabar. Continuo a não me reconhecer ao espelho, mas gosto de mim. Percebo agora que nunca mais serei a mesma. Nunca mais terei a mesma imagem e não serei a mesma pessoa. Tenho menos dificuldade em dizer NAO e digo-o. 

A quimioterapia pode ter-me curado. Espero mesmo que o tenha feito. Corrijo: curou-me! É difícil, é dura, revolve-nos a alma, mas não é tão má como eu imaginei.

A primeira e a última. 




25.5.25

Estas duas semanas têm sido terríveis. A constipação ainda não passou. Já tive todo o tipo de tosses, de expectoração, dores de garganta, os ouvidos tapados, o nariz tapado e o nariz a correr… isto simplesmente não passa enquanto estiver a fazer quimioterapia e estiver imunodeprimida.

O ponto mais baixo e mais alto simultaneamente da minha semana foi quando tive que ir fazer 3 TACs - abdominal, torácica e pélvica. Quem me conhece, sabe o pânico que tenho por este tipo de exames de imagem. 

Eu já tinha tinha feito uma TAC no dia do meu diagnóstico e foi uma choradeira. E quando fiz estas foi nova choradeira. Estive muito bem até chamarem pela Maria Cristina. Corrigi para Mara Cristiana (sim, eu sei!) e desabei em lágrimas nervosas. O que me tem valido é que as pessoas demonstram sempre tanta compaixão e tornam a minha experiência menos ansiosa. 

Deitei-me e avisam-me que não poderei tossir. Como não? Ando com tosse de cão há semanas, como vou conseguir não tossir? Arriscava-me a não conseguirem obter imagens e ter que ir lá novamente, novo contraste… Deitei-me com os braços para cima, fechei os olhos e a cama começa a deslizar para cima e para baixo, por entre ordens de suster a respiração e sons mecânicos. 

Como boa menina que sou, obedeci, mantive a minha respiração o mais superficial que pude para não tossir e concluí com sucesso as 3 TACs que lá fui fazer. 

Para fazer isto, sim, tive que ir buscar coragem.

Tenho andado super ansiosa por causa destes resultados. Não quero pensar no pior, mas acabo por só pensar nisso. Tenho tido uma dor na omoplata direita que me incomoda já há umas semanas. 

Têm sido dias bons e maus. A quimio vermelha é f&did@! Não há outra palavra para isto. Faz-me sentir mais vulnerável, sinto que não tenho o apoio que preciso, nem de amigos, nem dos médicos. E uma amiga explicou-me que parece que eu habituo as pessoas a estar sempre bem e depois ninguém se lembra que eu posso precisar. É provável que seja mesmo isso e eu estou de facto mais sensível. 

A preocupação agora é ter valores que me permitam fazer a última quimio na terça. Preciso mesmo de acabar isto! Estou cansada e farta… Já chega! 


19.5.25

Quimio vermelha 3/4

Começo a não ter vontade sequer de falar disto, embora esteja felicíssima por já só faltar uma. É muito tempo de tratamento, estou completamente drenada emocionalmente.

Enfim… na terça, apresentei-me para o tratamento, mas claramente não me sentia recuperada para lá estar. 15 dias não foram suficientes para aguentar novo tratamento. Não que as análises não estivessem boas. Pelos vistos estavam, tanto que fiz o tratamento. Mas não me sentia forte. O raio da constipação não ajuda nada.

Ao meu lado estava um senhor, pai de um rapaz que eu conheço. Tem um tumor no estômago, inoperável porque está na parte exterior do mesmo, por isso faz tratamento para o reduzir/eliminar. Contou-me que perdeu um filho em criança para um glioblastoma e concordamos que não há maior luta que possa travar do que a de ver um filho doente e perdê-lo.

A médica dele veio chamá-lo ao tratamento e foram para uma sala. A minha apareceu lá, disse-me que íamos iniciar a hormonoterapia e foi embora. Honestamente já nem sei o que pensar. Sinto-me pouco acolhida. O meu caso é muito standard e não há necessidade de ser debatido convenientemente comigo? Será isso?

O certo é que entretanto recebi notificações para fazer TACs esta semana e início a hormonoterapia logo após terminar a quimio. Está tudo a andar e é assustador. Tenho medo do resultado das TACs, tenho medo dos efeitos da hormonoterapia. Sinto que vou ser lançada às feras, como se a quimioterapia não fosse dura o suficiente.

Desta vez, aceitei uma sopa quente. Mesmo com a manta que levo de casa sobre mim, tenho frio. 

Apesar de constipada, apesar de ter 15 quimios no lombo, consegui fazer as aulas do Hugo nos 3 dias seguintes. E digo consegui porque foram uma luta e uma superação. Estou toda lixada, mas com f mesmo. Aproveito para me desafiar quando consigo porque já sei que depois só vai piorar durante os dias seguintes.

- cansaço extremo. Acabo uma refeição e fico exausta. Subo as escadas e fico exausta. Basicamente, faço as minhas coisinhas e deito-me logo a seguir.

- náuseas. Não sinto vontade de vomitar, nunca senti. Mas sinto uma resistência à comida e também à bebida. Nunca perdi o apetite, mas preciso comer muito devagar. De manhã, quando acordo, também tenho que me mexer com cautela porque sinto o estômago a revirar. 

- estômago inchado. Consigo parecer uma grávida. Não são gases, não é a zona abdominal, vejo mesmo o meu estômago a crescer. 

- queda de cabelo. Isto intensificou agora na 3a vermelha. Mantenho ainda bastantes pestanas em cima, mas em baixo já está deprimente. As sobrancelhas estão miseráveis e já não consigo ser bem sucedida a disfarçar com maquilhagem porque não tenho talento para isso. O cabelo solta-se com uma facilidade incrível, para além de estar todo branco. Sim, ficou mais branco. Também não me tinham caído os pêlos dos braços e agora também já se estão a ir. 

- unhas escuras. Não tenho usado qualquer verniz porque quero estar atenta a tudo o que me vai acontecendo. Noto um ligeiro escurecimento numa ou noutra unha, nada de dramático. Claro que ainda pode aumentar, mas é facilmente disfarçável com verniz. Não sinto as unhas mais fracas, mas também opto por usá-las sempre curtas. Nos pés tudo ok.

- pele seca. Ainda não tinha sentido nada porque a minha pele é oleosa e deve ter estado a gerir tudo muito bem, mas sinto por fim uma sensação estranha na pele. Sinto que está queimada, seca e áspera. Sobretudo no rosto, mas no corpo também noto mais desidratação. E logo agora que não consigo beber tanto… Estou a usar cremes da Avène e da Uriage e tenho conseguido contornar isto. Sempre usei batom do cieiro, mas agora não consigo mesmo estar sem.

- aftas. Desde que faço a vermelha que me aparece 1 afta na 2a semana e desaparece ao fim de 1 dia. Desta vez, ainda não apareceu. 

O que me está a incomodar mais esta semana é mesmo a constipação. Ontem fui à urgência porque os sintomas da constipação e os da quimio estavam a confundir-se e eu não quero mesmo arriscar ficar mais doente e falhar a última quimio. 

Sinto-me cansada, com dificuldade a respirar por estar entupida, garganta com pontos brancos, tosse há mais de 3 semanas. Fui auscultada e o que tenho é compatível com uma infeção vírica. Os pulmões estão limpos, apesar de terem muco que está a sair. Os pontos brancos na garganta não eram pus e são compatíveis com a virose. Trouxe xarope e água para o nariz. 

O facto de estar a fazer tratamento não me permite combater uma simples constipação eficazmente. É frustrante! E cansa! Porque passo horas sem dormir, como agora. São 5 da manhã e eu sentada na cama a escrever porque estou toda entupida. Tenho a janela de 1 semana para tratar disto porque logo a seguir tenho a última quimio para fazer.

Continuo a tomar as injeções para estimular a medula a produzir glóbulos brancos. A mínimo desconforto nos meus ossos, tomo paracetamol. Costuma aparecer-me dor ao fim de 4 dias. Estou sempre atenta a mim e ao meu corpo porque estas dores não são para negligenciar. 

Vou tentar regressar ao sono. 





10.5.25

Farta disto


Depois da quimio vermelha #2, tive direito a:

- 3 dias relativamente bons, dado que consegui treinar sempre 🏃🏻‍♀️‍➡️

- 4 dias completamente ko, com direito a muito sono, muito cansaço, muitas náuseas…😰

Só mais de uma semana depois, me senti melhor, apesar continuar cansada. A MV tem estado em casa com febre 🤒. Consegui tratar de assuntos domésticos e fiz uma caminhada ligeira num dia, fiz um treino fraquito no outro. 

Se consigo fazer uma atividade de manhã, sinto necessidade de dormir de tarde. Às vezes, durmo também de manhã. Durante a noite, o meu sono não é seguido. Acordo muitas vezes, ou porque tenho calor ou porque tenho tosse. Realmente, a recuperação de uma simples constipação está a ser difícil. 

Na quinta-feira fui mesmo à oncologia para ser observada por uma médica. A minha não estava, mas a Dra. Joana foi uma querida ao receber-me. Os pulmões estavam ok, que era o que me preocupava, e pediu-me que vigiasse a minha temperatura. Só a tosse teima em não passar, mas já estou menos congestionada.

Ontem também não tomei a última injeção desta semana. Estava sozinha em casa e não me apeteceu fazê-lo eu própria. Aquilo não dói, é mesmo para ser feito pelo próprio, mas não o fiz. 

Sinto que estou mesmo a atingir o meu limite. A quimioterapia põe-me doente, não me deixa recuperar, tira-me a energia, pôs-me feia e gorda. Não adianta virem todos dizer que estou linda, só é ridículo! Além disso, eu é que sei como me sinto. E, neste momento, a única coisa a que me agarro é mesmo à proximidade do fim. 

Ainda assim, admiro o meu corpo e o que ele está a aguentar. Não sei se foi boa ideia deixar o pior tratamento para o fim. Não propriamente para o fim porque ainda vai faltar outros tratamentos importantes e com as suas consequências para mim. 

Estou mesmo farta disto! Depois de 2 cirurgias (mama e cateter) com anestesia geral e 14 quimios até agora, acho que me posso queixar. 

Quero voltar a ter cabelo, desinchar, vestir a minha roupa, ter energia para fazer o que me apetece, voltar a ser convidada para sair.

1.5.25

Quimio vermelha 2/4

Já só faltam 2! Já só falta 1 mês!

Faço a quimio sempre à terça, por isso na segunda foi dia de análises. Não sabia qual a resposta do meu corpo à toxicidade deste medicamento e temia não conseguir fazer tratamento no dia seguinte. 


Enquanto aguardava pela consulta de enfermagem, a energia foi abaixo. Comigo, na sala de espera, estava uma moça a acompanhar o pai e tinha consigo um portátil. Dizia que os colegas também estavam a reportar falta de energia em Setúbal, Coimbra… achei estranho, mas nas minhas redes sociais ainda não havia nada. A energia regressou rapidamente (agora sei que foi devido aos geradores), mas as enfermeiras já não conseguiram chamar pelos doentes através do sistema interno de telefone. Então, vieram chamar-me pessoalmente à sala de espera.

Na consulta, percebemos que engordei mais 1kg. Já lá vão 7. Sinto-me mesmo mais inchada. Tensão ótima, sem temperatura.  Fizemos o registo dos sintomas:

- aumento de peso

- ligeira náusea e enfartamento

- calores 

- dores nos ossos, devido às injeções para estimular a medula

- aumento do cansaço

- insónia

- nevoeiro mental 

Por outro lado, também já diminuíram alguns sintomas que tinha na quimio branca, como por exemplo:

- neuropatia

- aumento do apetite

Estou agradavelmente surpreendida com a reação do meu corpo à quimio vermelha. Sinto-me mais cansada, sim, mas não é nada de extraordinário. As náuseas não me impedem de comer. Os efeitos gastrointestinais só se notam na sensação de enfartamento. Vejo a região do estômago mesmo inchada e não consigo encolher a barriga. Não tenho diarreias ou obstipação, como muitas pessoas relatam. E tive uma afta na semana passada que durou 1 dia. Não me posso queixar, pois não? Sou uma sortuda.

Quando saí, percebi a extensão do apagão. A minha casa tem tudo eléctrico, mas a minha mãe conseguiu preparar-nos o almoço na churrasqueira do jardim. Peixinho grelhado e batata cozida. 

À tarde, fui fazer reiki com a Mónica para passar melhor na quimio do dia seguinte. Ainda estive lá umas boas 2 horas e nunca imaginei que o cenário de apagão se mantivesse. Recolhemos a miúda no colégio e fomos preparar o jantar novamente na churrasqueira do jardim. Carne grelhada, arroz e salada. Estava um dia bonito, por isso, jantámos mesmo no jardim, aproveitando a luz do céu. A eletricidade regressou a minha casa por volta das 23.

Na terça, ligaram-me para ir mais cedo, pois havia disponibilidade numa cama. Prefiro as camas aos cadeirões, pois não são nada confortáveis. Esta quimio é mais agradável do que a branca porque não me dão anti-histamínicos e não fico sonolenta. Ao meu lado, estava novamente a rapariga do cancro no intestino. Contou-me que assim que começou o tratamento teve uma reação muito grave. Não era a primeira vez que fazia estes medicamentos, por isso não se sabe bem o que aconteceu. Ela deixou de conseguir respirar, de ouvir e de ver. Suspenderam a medicação e, depois de a estabilizarem (não sei como), retomou o tratamento. Eu, entretanto terminei o meu e vim para casa.




Foi só o tempo de chegar a casa e comecei logo a sentir o cansaço no corpo. Estava super pesado. Jantei e fui-me deitar. Dormi mal por causa daqueles calores. Segui a orientação da oncologista e dormi sem roupa 🫢. A verdade é que ajudou, mas fiquei constipada. 

No dia seguinte acordei às 6 da manhã. Não me sentia cansada, apesar do pouco descanso, nem enjoada. Fui beber a minha água com limão, brinquei com os cães, esperei que a miúda acordasse para ir para o colégio, tomei o pequeno-almoço e fui treinar com o Hugo e as meninas. Durante o dia, senti-me mais nauseada e ao lanche só consegui comer gelado. Já percebi que acordo bem e vou murchando ao longo do dia. São estes os comprimido que tomo para o enjoo.

Hoje já é quinta-feira. Dormi muito melhor, mas também acordei super cedo. Também fui treinar às 9:30 com o Hugo e as meninas. Hoje, juntou-se a nós, mais uma e também se chama Mara. Queria ter ido tomar banho logo a seguir, mas tinha fome, pois ainda só tinha bebido água com limão. Pedi à minha mãe que me preparasse uns ovos mexidos, com torradas e fruta. E eu preparei uma bebida de whey, com café e colagénio para acompanhar. Depois deste repasto, já não consegui ter forças para tomar banho. Descansei, porque era isso que o corpo pedia, e até dormi um pouco. Apresentei-me para almoçar já bem tarde, depois de todos. Mas almocei. E queria ter ido tomar banho, mas a esta hora (já quase 7 da tarde) ainda não tive ânimo. Aproveitei e já fiz mais 2 pequenas caminhadas e conto tratar da minha higiene em breve. 

De ontem para hoje, notei que me apareceu uma mancha num dedo da mão. Nas unhas ainda não noto alterações. Também noto que as minhas pestanas estão a cair mais… 

Amanhã, começo a tomar as injeções para estimular a medula a produzir glóbulos brancos. Vou tomar o paracetamol religiosamente a cada aplicação porque não quero voltar a ser surpreendida com aquelas dores.

Aguardemos os próximos capítulos. 

22.4.25

Ansiei muito chegar até aqui…


… à quimioterapia vermelha. Sobretudo porque era a mais dura, mais tóxica e mais agressiva. Mas também por ser a reta final de 5 meses de quimioterapia. É como se já se visse o fim à coisa. Ainda falta pouco mais de um mês, mas já cá estou. 
Tal como anunciado, a vermelha é lixada!
Após a primeira sessão, noto o seguinte:

-  Cansaço - estou incrivelmente mais cansada do que antes. E o cansaço tanto se manifesta de forma física, como de forma mental. Não voltei a treinar, faço pequenas caminhadas a muito custo.
- Dores de cabeça - não são fortes, mas parece que a cabeça está atrofiada, sempre com sono, visão debilitada.

- Náuseas - sempre presente um ligeiro enjoo, mas nunca senti vontade de vomitar. Parece que nunca tenho a digestão feita, sensação de azia e enfartamento. 

- Dificuldade em beber água - Enjoei a água lisa. Logo na altura em que devia beber mais água, é quando menos me apetece. Alternativamente, bebo água aromatizada ou com gás. 

- Cara esquisita - Agora, sim, não me reconheço. A pele parece que foi toda passada a lixa, a cara está muito redonda e inchada. No entanto, parece que já desinchei no corpo. Continuo a perder sobrancelhas e pestanas, apesar de ainda restarem algumas e isso altera-me completamente as feições. 

- Apetite - Diminuiu um pouquinho, mas nada de especial. Continuo a ter vontade de comer, mas tenho que comer quantidades menores.

Uma semana após a quimioterapia, todos estes efeitos secundários estão mais esbatidos e vou-me sentindo melhor.

Sexta e sábado foram muito maus. Domingo consegui ir ao almoço de Páscoa, mas não consegui chegar à sobremesa e fui descansar. 
Estes dias vou tentar fazer algum exercício físico, mas sem grandes expectativas. Fiz uma caminhada ontem e fiquei esgotada. 

Para além de tudo isto, estou a fazer as tais injeções que estimulam a medula. Não tenho dor alguma na aplicação, não parecem vidros a entrar, não tive dores nos ossos. 

Amanhã e depois, vou sair de casa. Vou tentar fazer uma maquilhagem e, quem sabe, usar uma peruca para me sentir melhor. 

18.4.25

Quimio vermelha 1/4

Comecei esta nova etapa, na terça-feira, com alguma apreensão. Toda a gente me falava como era mais dura esta fase. Efetivamente, é mais dura, mas não a sinto dolorosa. Para já, pelo menos.


Não me administraram o anti-histamínico, por isso não tive sono. Entretive-me a conversar com duas parceiras de sala. 

À minha esquerda, estava uma senhora de 70 e tal anos, e fazia a sua primeira quimio. Era a vermelha, não tinha cateter implantado e a enfermeira teve dificuldade em encontrar uma veia. O outro braço não podia ser furado porque já tinham esvaziado a axila. Esta senhora foi diagnosticada com cancro de mama no verão, fez cirurgia e só iniciou tratamentos agora, em Abril. Sinceramente, não entendo esta demora. Falou-me que não conseguiu quimio na semana anterior porque tinha os valores baixos devido a um antibiótico e, por esse motivo, tinha tomado umas injeções para a medula que lhe tinham provocado muitas dores nos ossos. 

À minha frente estava uma miúda de 45 anos. Estava toda encolhida na cadeira, muito magra e fraca. Não podia beber o iogurte frio e contou-me como não tinha forças para nada. Deu para perceber quando foi à casa de banho. Mal conseguia andar ou manter-se em pé. Depois, explicou que tinha um cancro do intestino, grau 4, inoperável. Começou a quimioterapia no Natal, não perdeu o cabelo, mas perdeu toda a energia e apetite. 

Do meu lado direito, estava um senhor, que já costumo ver por lá, e também aproveitou para reclamar do hospital de Lamego. 

Assim passámos o tempo. Fui tentando motivar a senhora do lado, já que estava no início. 

Vim para casa a fazer xixi cor de rosa/laranja. Efetivamente, aquilo tem um cheiro muito estranho, mas se bebermos muita água já não cheira. 

Nessa noite, fiquei com o jantar um pouco embrulhado. Não tive vómitos ou diarreia, só mesmo alguma dificuldade em fazer a digestão. O que me custa são os calores que vou tendo (fruto da menopausa falsa provocada pela quimioterapia) porque me acordam e depois tenho dificuldade em adormecer. 

Mantenho o cansaço e é mais intenso. Treinei nos dois dias seguintes à quimioterapia. Por outro lado, sinto que já não tenho o formigueiro nos dedos das mãos. Nos pés nunca senti. Na quarta, fiz também um direto com o PT Hugo sobre o trabalho que ele desenvolve com sobreviventes de cancro de mama. Pensei que não fosse conseguir devido à fadiga, mas correu muito bem. 

Ontem, quinta-feira foi o aniversário da minha princesa. Foi um dia desafiante. Estava exausta, havia muito barulho aqui em casa, muita gente… só aguentei mesmo por ela. Por ela, tudo. 




Hoje, sexta, foi o dia de iniciar a toma das tais injeções. Como a quimio vermelha baixa muito a nossa imunidade, é fundamental estimular a produção de glóbulos brancos rapidamente. Vou tomar uma injeção todos os dias até à próxima sessão de quimioterapia. É para aplicar na barriga e é a minha mãe que ma administra. Já foi assim quando fui operada. 


Disseram-me que a aplicação era dolorosa e que pareciam vidros a entrar. Passei o dia todo a pensar nisso e só quis tomar a injeção no final do dia, com receio da dor. Não me doeu absolutamente nada. Também pode ter sido da camadinha adiposa que tenho sobre a barriga… 

A minha vizinha de cadeirão também me disse teve fortes dores nos ossos. Para já, não sinto nada, mas pelo sim pelo não vou tomar um paracetamol. Se puder evitar dores, vou evitar. 

Para já, é isto. Estou sempre cansada, nem sequer me apetece beber água, tenho muita falta de energia e uma má disposição digestiva constante. E acho que também já estou a comer bem menos. Valha-nos isso, a ver se perco os kilos que não me pertencem. 

8.4.25

Quimio 12/12



12 semanas depois, eis-me chegada ao fim do Capítulo II. 

Perdi cabelo, mas ganhei 6 kg. Estou mais cansada, mas sinto-me mais forte.

Não cheguei aqui sozinha. Obrigada à minha mommy querida @juliadalilamoura que nunca me abandona e que não merecia mais este desafio da vida.

Obrigada a todos os que se fazem presentes e que não se intimidaram com este diagnóstico. Obrigada por continuarem a ligar, mandar mensagens e a convidar para jantar, mesmo que nem sempre atenda, que não responda rapidamente ou não me apeteça sair para jantar. Sem pressão, voltam a repetir os convites até que me apeteça. Os meus não foram embora.

E obrigada àqueles que se ausentaram. Foram poucos, mas aconteceu. Chemo ghosting é uma realidade, people. A desculpa comum é que estão a dar espaço para a pessoa se tratar ou que não saberiam o que dizer. É só ridículo e triste, mas aceito a sua decisão. 

O meu núcleo está forte e estável. Só penso em quem não tem esse suporte e que necessariamente se vai abaixo porque se sente duplamente abandonado.

Por esse motivo, sou tão grata por quem tenho. Por ter quem tenho é que me permito ter uma boa auto-estima, esperança e ânimo numa recuperação total. Não é leveza. É saber que sou forte porque os tenho e que também quero continuar cá por eles. 

Leio todas as mensagens que recebo. Reparo que todos os dias novas pessoas chegam ao meu Instagram. A maioria são mulheres que passaram ou estão a passar por este processo. Mas também há pessoas que não me seguem e dão-se ao trabalho de todos os dias irem visitar a minha página. Sim, eu consigo ver isso. Não sei se é curiosidade mórbida, se é cusquice ou simplesmente se é para ver se já morri. Ainda estou aqui. 

Agradeço toda a força que recebi de amigos próximos e distantes. A dos próximos eu já antecipava. Agradeço que não me liguem só para saber como estou, mas também para me contarem da sua vida. Normalidade. A força dos amigos distantes, aqueles com quem já não falava há 20 anos ou mais, emocionou-me muito. Aquelas pessoas que, não conseguindo articular palavras, me deixam só um ❤️. Mil vezes isto do que um longo texto sem sentimento do chatGPT. 

Ontem, fui ao portão de casa receber uma encomenda da MRW. O senhor ficou impressionado por me ver sem cabelo. Entrega-me a caixa e pergunto-lhe se precisa de alguma coisa da minha parte. E diz-me que só precisava que eu fosse feliz e tivesse saúde. Já viram a sorte que tenho? Obviamente que lhe desejo o mesmo. 

Estou mesmo feliz porque cheguei até aqui. É motivo para celebrar porque consegui não falhar nenhum tratamento. Foram 12 semanas seguidas, com uma cirurgia e anestesia geral logo após o 1.º tratamento. Agradeço ao meu corpo que aguentou tanta toxicidade.

Não dou nada como garantido, mas faço a minha parte. Faço treino de força 2 ou mais vezes por semana, alimento-me bem, nunca perdi o apetite, tomo vitamina D e Omega 3 e sou selectiva com o que a minha mente consome. Isto aplica-se a pessoas, redes sociais (deixei de seguir uma série de páginas), livros, séries e filmes e música. Permito-me chorar de vez em quando porque tem mesmo de ser, como é o caso agora. E depois, foco-me em coisas positivas. Não que o que escreva não seja positivo. É positivo porque sinto que também tenho a responsabilidade de criar conteúdo que seja útil e motive outras pessoas. E aqui eu sou completamente honesta. Só falo do que acontece e não faço parecer fácil. O positivismo pode ser muito tóxico também.

Também estou feliz porque na próxima semana vou começar o Capítulo III desta aventura. Depois da cirurgia da mama, do tratamento de quimio branca, segue-se agora a quimio vermelha. Vai ser ainda mais desafiante porque traz mais toxicidade ao corpo, provoca anemia, mais problemas gástricos, problemas de pele, enjoos… o que for. Pode provocar tudo isso ou não. Estou entusiasmada porque me aproximo do fim disto tudo. Inicio o tratamento na próxima terça e depois, permitindo as análises ao sangue, repito o tratamento a cada 2 semanas, 4 vezes. 

Espero manter o ânimo e a força, apesar de todo o cansaço já instalado. Obrigada a todos pela ajuda. 

4.4.25

As cores da quimioterapia.


Estas cores não são sinal de saúde, mas sim da agressão que o tratamento causa na minha pele. Há quem sinta efeitos muito piores. Não me posso queixar, até porque não tenho outro sintoma que não seja este rubor. 


Hoje estou sem um pingo de energia. E porquê? Porque ontem exagerei. 


Na terça fiz tratamento. No dia seguinte, tendo dormido apenas 4 horas, resolvi fazer uma caminhada de manhã. Antes do almoço ainda treinei. Depois, resolvi descansar um pouco. Mas há pessoas à minha volta que, vendo-me com bom ar, acham que ainda posso aguentar mais um pouco e insistiram que fosse buscar a miúda ao colégio e às compras. Entretanto, já era quase hora de jantar e trouxemos Mac. E depois era hora da miúda ir para a cama, banho, roupas para o dia seguinte, etc.. Só consegui adormecer depois da meia noite. Às 7:30 já tive que acordar para auxiliar a minha filha antes dela ir para o colégio. Depois disso, ainda dormi mais umas 2 horas. 


O meu sono agora não é seguido. Estou sempre a acordar, com calor ou com frio, sempre com algum desconforto que me impede de ter um sono reparador. 

Então, porque eu não soube dizer que não, sinto-me exausta, com algumas tonturas. Queria treinar e não vou conseguir. Nem sequer me apetecer beber água.


Lição: Só nós conhecemos os nossos limites. Na vida, mas sobretudo num processo de tratamento, é muito importante respeitar-nos e sabermos até onde podemos ir.

3.4.25

Quimio 11/12


Aquilo que mais retenho deste dia de tratamento foi a dificuldade em arranjar alguma coisa para vestir. Estou a ter problemas em aceitar o aumento de peso e adaptá-lo à roupa que habitualmente uso. 

Mas comecemos pelo dia anterior, o das análises. Porque não há tratamento sem análises. Nesse dia, vesti umas calças de ganga e t-shirt, mas as t-shirts não dão jeito para o dia da quimio devido à localização do cateter na zona da clavícula. Enfim… lá consegui encontrar uma t-shirt mais decotada e uma saia que não me fica muito mal. 

As análises continuam ok. Estou super feliz por ainda não ter sido impedida de fazer tratamento. Na consulta de enfermagem, tudo ok e ligeiro aumento de peso. Mesmo com atenção ao que como e atividade física, a cortisona ganha sempre…

Efeitos adversos: insónia, fadiga, neuropatia, falta de memória, aumento de peso. 

Saí da consulta de enfermagem e fui tratar do Atestado Multiusos. Está entregue nas finanças, mas hei-de falar em breve sobre isso.

No dia do tratamento, fui tranquila, como sempre. Levo sempre uma mochila com uma manta e comida. Desta vez, não comi nada. Tinha tomado café antes de sair de casa e fui bebendo água. Eu faço sempre jejum intermitente, mas nos dias de tratamento não fazia. Passei a fazer também. 

A minha consulta com a oncologista foi durante o tratamento, na sala, ao lado de outras pessoas. Não gosto nada disso. Primeiro, porque há mais pessoas na sala e pessoas mesmo ao meu lado também a fazer tratamento. Por acaso, nunca tenho nada de especial ou muito privado a dizer sobre os meus efeitos secundários, mas podia perfeitamente ter e não seria aquele o lugar para os partilhar. Depois, estou sempre muito sonolenta devido à medicação. Ou seja, esqueço-me de metade das coisas que tenho para discutir com a minha médica. Enfim… já tenho o plano do novo tratamento e vou iniciá-lo já no dia 15 de Abril. 

Vim para casa, almocei e de tarde dei uma caminhada. Tudo tranquilo, sempre bem disposta e animada. 

Rumo à última sessão!!! 

 


29.3.25

Quimio 10/12

Esta semana quase me esquecia de registar mais esta pequena etapa. E tudo porque me senti super bem no pós-quimio, apesar de não estar assim tão bem antes. Mas vamos por partes.

Na segunda-feira, como habitual, fui fazer as análises ao hospital de dia. 

Não tinha vontade de acordar porque tinha dormido muito pouco. E já há vários dias que dormia pouco. Nos dias em que estou mais down gosto de me arranjar mais, para contrariar a disposição. Ajuda-me bastante. 

As senhoras do balcão já me conhecem. Já são 10 semanas a ir lá 2 vezes por semana e desta vez uma delas conversou mais comigo a propósito do meu nome. Que gostava muito de Mara e que se tivesse tido uma filha ter-se-ia chamado Mara. Achei graça e partilhei que uma vez quando fui fazer as análises ao -1 fui recebida por duas meninas: uma Mara e outra Cristiana, que são só os meus dois nomes. Há coincidências engraçadas. 

Desta vez, fui atendida por outra pessoa. Nunca tinha visto aquele homem a fazer colheitas, mas mal me dirigiu a palavra. Há pessoas muito simpáticas e outras, assim, autómatos, que fazem o serviço sem olhar para nós. É uma pena! Porque muitos doentes fazem estes procedimentos com muita angústia e ajudaria muito sermos bem acolhidos. Felizmente, isto não me afeta minimamente. 

Segui para a consulta de enfermagem. Tensão ok, peso igual, temperatura ok.

Efeitos adversos: insónia, fadiga, neuropatia. 

Na terça-feira, segui para a 10a quimio. Estava muito cansada e começar logo às 9:30 também não ajuda nada. Prefiro quando é à tarde. Continuo com insónias e continuo a não tomar nada. Preciso resolver isto porque o cansaço está a ser muito intenso. Não me apetece sair da cama, apesar do entusiasmo de ir fazer mais um tratamento. Ser a 10a sessão deu-me uma força enorme. 

Hoje também tive consulta de nutrição. Análises ótimas, o peso mantém-se e, pelo menos, não aumentou. Não podemos fazer nada quando a isso agora, até porque o próximo tratamento vai ser bem duro. 

Voltei para o cadeirão 7 e em 3 horas tinha o assunto resolvido.

Há uma coisa que preciso de falar na próxima semana com os enfermeiros. A agulha que me põem no CTI (o cateter que tenho implantado) tem gerado dúvida. Pelos vistos, o meu cateter está muito profundo e o ideal é usarem a agulha maior. No entanto, ma maior parte das vezes, usam a mais pequena e tem resultado muito bem. Se a agulha for demasiado pequena, a medicação pode não chegar ao CTI e derramar. Só que quando usam a agulha maior dói-me bastante e não é só durante a quimio. Tive dor no local a semana toda. 

Esta semana andei muito bem. Tenho a certeza que foi influência do bom tempo. Treinei 3 vezes e fiz caminhadas todos os dias. Cansei-me, descansei sempre que precisei e, por esse motivo, não senti tanto a fadiga. 

Em breve, falarei sobre o Atestado Multiusos e sobre suplementação. 

21.3.25

Descida aos infernos

Ontem voltei a não dormir bem. Tem sido a dominante nestes dias. O pior foi que, quando fui ao telemóvel, ainda na cama, vi uma notícia de uma mulher que tinha morrido após luta contra 3 cancros. Li a notícia e vi que partilhava o seu dia a dia no Instagram. Fui ver. Má ideia.
O Instagram Iolanda tinha muitas publicações. Recuei até ao momento em que ela partilha o seu diagnóstico. Já não me consegui levantar da cama. A Iolanda sentiu um nódulo na mama enquanto amamentava a filha de 2 meses. Já tinha outro filho um pouco mais velho. Todas as publicações eram cheias de esperança, muita animação, muita diversão com os filhos, muita fé em Deus. Em 2 ou 3 li mesmo que os resultados tinham chegado e estava limpa de células cancerígenas.
Mas não estava. Não estava porque novos cancros chegavam e a Iolanda parecia estar continuamente em tratamento, cirurgias… E em 3 anos, morreu. Deixou 2 filhinhos, marido e pais sem aquela alegria.
Ontem não consegui tirar o pijama e fui-me realmente abaixo. Apesar da minha oncologista me ter dito que já não tinha tumor, que os meus tratamentos eram preventivos e curativos. Mas a semente da dúvida já tinha sido lançada. Comecei a pensar que poderia estar enganada em relação à minha situação e voltei a ser a Mara ansiosa que só vê o pior cenário. Alimentei incertezas, duvidei dos meus médicos, foi muito mau…
Falar com os amigos ou familiares saudáveis também não ajuda muito. Eles não conseguem compreender e ainda bem para eles. Espero realmente que nunca compreendam.
A Iolanda não perdeu a batalha contra o cancro. Ela ganhou-a todos os dias. Ganhou-a todos os dias em que apareceu para fazer os tratamentos, todos os dias em que se manteve animada apesar das circunstâncias. Para mim, ganhou tudo! Os filhos vão ter imensas memórias de uma mãe incrível. 
Ontem tomei uma decisão. Não posso ler notícias destas. Se no início deste processo eu sentia a necessidade de me aproximar desta comunidade oncológica, hoje sinto vontade é de me afastar. Não tenho estrutura para lidar com estas situações. E não quero. 
Nas minhas redes sociais, estou a tentar mudar o algoritmo para que não me mostre estas coisas, para que não me “apresente” estas pessoas. É muito triste, eu sei, mas não consigo. Preciso de me focar na minha cura total e preciso de me ver curada. Preciso de visualizar a vida que quero ter depois disto passar.
Acho que foi importante ter mergulhado tão profundamente para conseguir ganhar impulso e voltar à superfície. Da mesma forma que tenho cuidado com o que como, com o exercício que faço, também tenho que acautelar o que dou de alimento às minhas emoções. 


20.3.25

Quimio 9/12

1 - Insónias. Custou-me sair da cama e não quero meter-me em mais drogas do que as que já tomo. Tenho andado a tomar melatonina, mas já tomo tarde e consequentemente adormeço muito tarde. Tenho que acordar sempre às 7:30 para ajudar a MV a preparar-se para o colégio e já não consigo voltar a dormir. Têm sido vários dias com apenas 5 horas de sono e não lido bem com isso. Preciso de me disciplinar no descanso.

2 - O cadeirão é desconfortável. Apesar de dar para reclinar, tem outras funções que não estão operacionais. Dormir naquela sala não é fácil porque tem muita luz. Deveria ter trazido qualquer coisa na cabeça porque a sensação de sentir a pela da cabeça colar no cadeirão é muito desagradável. Mas estava tão cansada que, após os anti-histamínicos, dormi assim mesmo. 

Hoje levei a manta e o tablet para continuar a ver a série Adolescência (ainda não acabei). Senti uma vontade enorme de falar com a minha filha e um medo de usar corações, já que desconheço a mensagem subliminar que cada cor tem. A adolescência dos tempos de hoje tem desafios muito perigosos e isso preocupa-me muito. 

3 - Estava tão ferrada a dormir (apesar do desconforto) mas tive que fazer a escala habitual na casa de banho. Ganhei forças para me levantar porque uma senhora muito simpática da Liga Portuguesa contra o Cancro apoiou as mãos no braço da minha cadeira porque me queria oferecer um lanche. Agradeci e disse que já tinha comido porque eu vou sempre prevenida. 

Entretanto, ela olha de novo para mim e pergunta-me se eu ainda não tinha ido lá acima (deveria estar a referir-se à associação Borboletas aos Montes) buscar uma peruca. Com a mesma simpatia, expliquei-lhe que tinha várias em casa e que eu gostava de não usar nada. Ficou um pouco desconcertada e afastou-se, compreendendo. 

Eu sei que pode ser chocante andar com a cabeça nua. Mas já o é cada vez menos. Gosto de ter opções, até gosto de me ver de peruca, não gosto de me ver com outros acessórios, mas o mais confortável é não usar nada. Para mim, é assim. E já ando a ver novas perucas. Continuo a gostar. 

4 - Ao fim de 9 viagens destas, isto já não tem muita graça. O cansaço e a impaciência instalaram-se. Será que isto nunca mais acaba? Admito que estou farta disto. Sinto-me mais fraca emocionalmente, com muitas dúvidas e acho que é normal. Este processo é muito longo, há margem para acontecerem muitas coisas e o estado de espírito não é linear. É preciso saber acolher esses momentos de incerteza e insegurança e, no dia seguinte, levantar a cabeça e seguir rumo à cura total. 

5 - A desmontagem do material. Debaixo da minha pele está um acesso intravenoso para receber a medicação. Já falei aqui sobre isso. Desta vez, mostro como se retira. E é super simples porque é apenas uma agulha que fica instalada no tal acesso. E eu até tenho que colocar uma agulha maior porque aparentemente o meu cateter está muito profundo (ou seja, não é imediatamente debaixo da pele) e uma agulha maior é mais segura para que a medicação passe sem problemas. Não dói nada. O que mais me custa é tirar o adesivo porque faço sempre uma pequena reação.



16.3.25

Quimio 8/12

Na segunda-feira fui sozinha fazer as análises. Habitualmente, vai comigo, fica no carro e eu entro. Se houver necessidade, ela tira o carro. O estacionamento no hospital é reduzido e é mais rápido de deixar o carro à porta, sem dificultar o trânsito. Não afeta mesmo. E a mim facilita-me imenso. A minha mãe está doente e não me acompanhou. Não foi uma coisa rápida. Demorei imenso tempo na consulta de enfermagem, mas consegui falar com uma médica que me prescreveu uma pomada com corticoide para a alergia que tenho nos dedos.

No dia seguinte, fui fazer a quimio, mas antes tive consulta de nutrição. Não se acrescentou nada. Análises ok, peso como antes. Não vamos mudar nada porque não posso fazer dieta. Acredito que quando acabar a quimioterapia tudo voltará ao normal. O Dr. Edgar estava com 2 estagiários que ficaram surpreendidos quando me viram. Depois de verem a confiança com que me movo, ficam mais tranquilos e relaxam. 

Sigo para a quimio. Business as usual, mas desta vez dormi. A insónia tem tomado conta de mim, por isso assim que me deram o anti-histamínico, adormeci. Não estava nada confortável. Prefiro as camas, aqueles cadeirões são desconfortáveis. Recusei o almoço que me ofereceram porque tinha levado um pão, banana e um sumo. Tinha mais sono do que fome. E rapidamente, o tratamento acabou. 

Esta semana está a ser mais dura. Sinto-me cansada, mesmo cansada. Os treinos foram difíceis, como se o corpo não correspondesse aos meus comandos. Simplesmente não há força. A neuropatia também já se instalou. 3 dedos da mão direita e 1 ou 2 da mão esquerda já estão meio dormentes. Também já sinto algumas dores musculares e articulares. Não deve ser do treino porque nem foi assim tão duro. Hoje fui fazer uma caminhada, mesmo sentindo-me muito cansada, para tentar atenuar a fadiga. 

E estou sem paciência para escrever. Adiei mesmo até hoje. 

Efeitos adversos: insónia, fadiga, dores musculares e articulares, neuropatia.